quarta-feira, 19 de junho de 2013

 FELICIDADE E SOFRIMENTO
A associação íntima entre sofrimento e prazer não se aplica somente ao corpo. A experiência humana demonstra que essas duas qualidades acham-se entrelaçadas. Freqüentemente, o prazer intenso só aparece depois de uma luta prolongada.
Um dos meus amigos costuma fazer longas caminhadas pelas montanhas. É uma atividade árdua e cansativa, que o leva aos limites da sua capacidade física. Ao fim do dia, ele se joga exausto no saco de dormir e acorda cheio de dores e arranhões. Tropeçando nas pedras soltas e atravessando passagens difíceis pelas rochas, ele fica com os músculos doídos, machuca os seus dedos, e sente muita dor. Mas o meu amigo relata que, no meio de todas estas experiências, os seus sentidos são grandemente afetados. Parece que se tornam mais vivos. Quando ele respira grandes golfadas de ar, torna-se mais consciente da existência do ar. Seus olhos e os seus ouvidos ficam mais atentos ao que se passa do que normalmente. Certa vez, depois de andar uma tarde numa neblina fria, ele explorou os seus bolsos à procura de algo para comer. A sua comida tinha-se acabado, sobrava-lhe apenas uma caixa de passas. Negligentemente, abriu a caixa e jogou a primeira passa na boca. Sentiu um sabor incrível. Comeu outra e mais outra. Pareciam até superpassas, muitíssimo mais gostosas e refrescantes do que quaisquer outras que houvesse algum dia comido.
O fato de usar o seu corpo, bem como todos os seus sentidos, deu-lhe uma consciência de prazer numa gama de valores inteiramente nova. Ele jamais sentiria tal sabor, tão delicioso e extraordinário, em umas simples passas se não fosse pela fadiga e pelo esforço violento de escalar montanhas o dia todo.
Num nível mais elevado, a maioria das realizações humanas de grande mérito envolve uma grande história de lutas. Seria o prazer possível sem o processo da dor? O prazer, vindo depois da dor, absorve-a. Jesus usou o nascimento de uma criança como analogia: nove meses de espera, dor excruciante, e, então, êxtase absoluto. Há um corolário para o princípio cristão sofrimento/prazer. O real espírito do Cristianismo acha-se no fato de que a verdadeira satisfação vem, não por uma realização egocêntrica e confortável, mas por meio de serviço tedioso e sofrido.
Não se pode tirar o sofrimento das experiências da vida e condená-lo severamente. A reação instintiva de revolta contra Deus por permitir Ele a dor, é extremamente fútil. Ela está por demais entrelaçada com as nossas sensações, e é, freqüentemente, um passo necessário ao prazer e à realização.
Se eu gastar a vida procurando felicidade em drogas, conforto e luxo, terei enganado a mim mesmo. “A felicidade foge daqueles que a perseguem.” A felicidade virá a mim inesperadamente, como subproduto, como uma surpresa adicional, depois de eu ter investido a vida em alguma coisa de valor. E, provavelmente, esse investimento inclua muito sofrimento. Sem ele, é muito difícil imaginar o prazer.
(Philip Yancey, em “DEUS SABE QUE SOFREMOS”)

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